quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Globalização

Há muito se fala em globalização, conceito que, inevitavelmente, inclui a padronização da cultura e dos seres humanos. Quanto mais globalizado o individuo, mais próximo de uma cultura genérica ele se encontra; e, obviamente, mais distante de sua própria cultura. Quanto maior essa referida cultura genérica (geral), mais abrangente o poder de sua influência. Em que recanto do planeta traços dessa cultura geral ainda não chegou? Neste século nascente não existe recôndito onde ela não exerça algum nível de influência - por menor que seja, embora nunca insignificante. Como se nos apresenta essa cultura geral? Através da economia, do comportamento, da arte, da educação, ciência e tecnologia, midias - principalmente as eletrônicas como a internet e a televisão. Como interagimos com ela? Através da adoção de seus princípios: o principal entre eles é o conceito de inclusão. Todos queremos fazer parte da globalização, pois, numa primeira acepção, ficar de fora significa permanecer num estado primitivo da civilização; renegar o novo é admitir seu misoneísmo, enquanto globalizar-se é estar permanentemente sintonizado com as novidades. Em novas acepções, passamos a compreender que a globalização é um processo irreversível de mudanças significativas que envolve o mundo e tudo o que este compreende, incluindo a natureza e as culturas primitivas. Definitivamente, avançamos a passos largos rumo à padronização social e genética. É inevitável que as culturas - hoje separadas pelas suas diferenças - venham a integrar-se no sentido de originar talvez não um conjunto de valores híbridos, mas, principalmente, um conjunto novo de regras e valores que regerão todo o comportamento humano a partir dessa grande fusão: essa fusão está em processo desde os primórdios da civilização; na contemporaneidade assistimos a aceleração desse processo. Nunca antes as transformações foram tão vertiginosas, nem tão pacíficas, embora o último século tenha sido um dos mais sangrentos da história. Mas esse fato se deu basicamente porque a questão da identidade num mundo que se sintetiza tornou-se fator crucial. A luta da identidade particular neste processo expressa a recusa do ego em aceitar a sujeição ao coletivo. O que o ego desconhece é o fato de que essa sujeição não será absoluta. Trata-se aqui de uma troca justa onde cede-se uma parte de si para receber um benefício (nada que já não tenhamos feito antes: veja "O Contrato Social" de Jean Jaques Rousseau). A necessidade de determinar como e para onde deve caminhar a humanidade pautou as decisões dos setores governamentais - não podemos separar dessas decisões o medo do outro, do estrangeiro, da cultura estranha à sua.
Sabemos que o medo e a ambição incitaram o desejo de conquistar o mundo. Mesmo sabendo que a globalização está em processo desde o início da civilização - diría até que a própria civilização é esse processo -, as diferenças entre os povos ainda é gritante e causa dos muitos males que sofremos. É por causa dessa diferença - que origina o conceito de superioridade - que muitos repudiam violentamente a raça e cultura do outro. É esse fator que garante a sobrevivência da espécie num habitat hostil, mesmo que a ideologia e a guerra - em todas as épocas - contrariem, às vezes, essa constatação. A globalização e sua consequente padronização dos costumes poderá, finalmente, minimizar esse tipo de violência. Tendo essa mudança na relação entre os seres-humanos como um fator desejável, podemos inferir que a globalização é benéfica. Se esta é fundamental para a redução das diferenças e consequente aceitação do outro só nos resta desejar que ela se consolide. Afinal, quem não deseja viver em paz com seu conterrâneo, com o indivíduo de outra raça, com aquele que habita os rincões do mundo? Quem não deseja a paz? Sómente aquele que obtém lucro com a guerra; só aquele que possui índole maléfica e obtém prazer em causar o mal; só aquele que se encontra possuído pela noção falsa de superioridade...
Há quem defenda a não globalização, pois vê nesta o fim daquelas diferenças que enriquecem a cultura humana. Vê nesses traços individuais a razão sine qua non da existência humana. Quem não se admira das artes e invenções criadas tanto pelo ocidente quanto pelo oriente; seus diferentes pontos de vista a respeito de qualquer assunto? Digo, de antemão, que nada disso se perderá com a consolidação da globalização. Os individuos, por mais que vivam sujeitos a um mesmo padrão cultural, não deixarão de viver em pontos longíquos do planeta e mesmo que venham a falar uma única língua, não deixarão de apresentar sotaques, por mais sutís que sejam. E produzirão arte tão distinta uma das outras quanto hoje o fazem. Um individuo só é plenamente identico à outro na ficção - e mesmo nela, a diferença é o tema principal da obra. Na realidade, mesmo com interferência genética, nós somos e continuaremos a ser diferentes uns dos outros. Pelo menos é o que supunho, mesmo tendo em vista a atual condição da ciência genética e cibernética. Presumo que num futuro relativamente distante, o ser-humano que habitará a terra será um indivíduo privilegiado tendo a seu serviço toda uma gama de robôs. Todo serviço não honroso e subalterno, porém estritamente necessário, será efetuado por essas criaturas de metal capacitadas por micros computadores em lugar de cérebros, e não por pessoas consideradas inferiores por qualquer traço que as diferencie.
É natural que aceitemos o fato de que a humanidade será reduzida consideravelmente em comparação à demografia atual. A não ser que seja designada - o mais provável - para a exploração e povoamento de novos planetas: a exemplo de um passado remoto quando as metrópoles exploravam suas colônias na africa e no novo mundo. Considerando essa possibilidade é de se supor que o planeta será, em algum momento desse processo, preservado - ou o que restar dele. É claro que as diferenças sociais permanecerão, mas, tendo em vista uma padronização também na qualidade de vida, essas diferenças poderão ser atenuadas: o que minimizará o sentimento de inferioridade dos menos afortunados.
Imaginemos um mundo onde só existe uma língua; um mundo onde todos podem se comunicar beneficiados por esse fator. Um mundo sem fronteiras, onde qualquer um detém o direito e o privilégio de ir e vir justamente por serem todos de uma mesma nacionalidade. Um mundo onde só existe um governo (melhor supor, neste caso, a aplicação do conceito de adminstração, mais apropriado à um mundo novo) e, portanto, nenhum outro para fazer oposição. Um mundo onde só existe uma moeda, onde a inexistência de uma superioridade econômica sugere também a inexistência dos conflitos desencadeados em caso contrário. Imaginemos, através de séculos de cruzamentos, a homogeneização das raças. Com isso obteremos o fim dos preconceitos e dos violentos conflitos que tanto caracterizam o confronto das raças em nosso tempo. Só uma raça preconceituosa e presunçosa não toleraria a possibilidade de perecer em favor de uma raça de características universais. Se a diferença entre as raças e entre os indivíduos de uma mesma raça é fator de inúmeras vantagens é também fator determinante de inúmeras desvantagens (se hoje o mestiço é visto como um individuo oscilando entre duas culturas, num contexto onde ele torna-se a regra e não a exceção, essa situação desconfortável simplesmente desaparece). Muito dos benefícios produzidos por estas diferenças não desaparecerão numa cultura socialmente padronizada: a capacidade do ser-humano em criar permanecerá inata. O acesso à cultura seria determinado pela capacidade individual e não totalmente, como hoje, pelo privilégio da raça e condição sócio-econômica.
Há muito o que refletir sobre esse assunto. Não sou autoridade, apenas um curioso que pensa, às vezes, na possibilidade nada remota de uma padronização da cultura e do elemento humano. Gostaria que os visitantes desse blog postassem sua opinião a respeito desse assunto para que possamos desenvolvê-lo a um nível de satisfação. Nada é mais atual e urgente que esse assunto, pois esse provável mundo não está assim tão longe de sua consolidação. Estou ciente de que nenhuma ficção literária ou cinematográfica à respeito trata com seriedade as provaveis consequências dessa consolidação. O processo dessa consolidação pode, sim, originar conflitos e confrontos violentos num futuro breve, pois sabemos como algumas nações contemporâneas ainda insistem em manter-se fora desse contexto universal que vêm sendo buscado desde tempos imemoriais; mal sabem eles que já se encontram dentro do processo e que apenas o ego de algum tirano narcisista teima em fazer crer que a não integração é que é a opção correta.
Sujeito este texto a inserção, a qualquer momento que julgar necessário, de novas considerações sobre o assunto, inclusive à mudança de alguma já postada, caso compreenda que a mesma requer novo tratamento. As opiniões que se pronunciarem serão postadas como comentários à parte do texto, seguindo as determinações do blogger.

Gilberto Lins

sábado, 7 de novembro de 2009

Videos: curiosidades



Videos postados com o único propósito de entreter os navegantes que neste porto ancorarem, mesmo que estejam apenas de passagem. Uma viagem pelos meandros da rede pode ser cansativa, principalmente para aqueles que não têm destino definido.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Crônica: uma catarse


São Paulo sob o olhar crítico de um filho adotivo

Lembra-te, São Paulo, quando pousei os pés pela primeira vez em teu solo? Lembra-te de como me recepcionaste? Imbuída de um espírito patriótico cercou-me de "milicos" numa calçada em frente a antiga rodoviária, situada próxima a Estação Júlio Prestes, na qual eu recém desembarcara, e os fez, em coro, exigirem que eu despisse a calça do exército brasileiro que trajava - diga-se de passagem, com certo orgulho de rebeldia comum aos jovens da década de 70 -, mas não com desrespeito à instituição. Ali, diante dos transeuntes curiosos, um tanto acuado no interior de um círculo formado por jovens como eu, despi, consntragido, induzido pelos argumentos incontestávelmente agressivos, a calça verde oliva, entregando-a ao mais graduado entre os soldados. Em seguida vesti outra calça e sob censuras e recomendações de que não deveria tratar com vulgaridade o símbolo e o patrimônio do Exército Brasileiro, fui liberado sem mais penalidades.
Então, neste momento e sob o efeito desse desconforto, olhei-te longamente, São Paulo, e vislumbrei pedaços de seu céu acima do topo de seus arranha-céus. Me surpreendi com tuas ruas extremamente movimentadas e verifiquei que um tom acinzentado prevalecia sobre todas as outras cores ao redor, tornando-as decepcionantemente pálidas. Para qualquer lado que me virasse lá estava o referido tom cinza, em suas infinitas gradações, a dominar toda a paisagem urbana. Era essa a cor da sua pele, revelada num choque visual?
Eu vinha do Paraná e rumava em direção ao Rio de Janeiro e tu serias apenas uma estação intermediária nesse trajeto; no dia seguinte retomaria a viagem. Recordava-me nesse instante, de um outro dia no passado quando te vi pela primeira vez, também em trânsito, do interior de um ônibus, rodando por tuas ruas entre teus edifícios, e só o que ficara impresso na minha mente juvenil fora a tua atmosfera escura e cinzenta. Olhei espantado para tuas torres pontiagudas e convergentes apontando para o céu e cerrando-o como se quisessem mesmo barrar sua presença. Uma garoa fina contribuía para o estabelecimento de uma atmosfera sombria. Em minha memória ficou gravada essa tua imagem: uma cidade constituída de desfiladeiros e transitada por zumbis apressados. Senti alívio - confesso-o - por não precisarmos descer do ônibus e uma reconfortante alegria dominou-me completamente quando atingimos a Rodovia Castelo Branco e pude vislumbrar novamente o céu aberto e todos os seus horizontes. Nesse dia eu retornava para casa após uma viagem que incluíra uma estadia no Rio de Janeiro. Esta cidade, com amplos horizontes, contrastava com a ausência de espaço em ti verificada. Mas, ironicamente, apesar de ter estado em muitos lugares interessantes nestas viagens, o que permaneceu encravado em minha memória foi justamente o teu perfil. Foi assim que a nossa relação teve início: enquanto revelava sua indumentária sombria e seu caráter hostil, eu apenas buscava me manter o mais distante possível de sua influência perturbadora.
De volta do Rio de Janeiro nesta viagem contemporânea, hospedei-me temporariamente na casa de uma tia, situada na Vila Nova York - um bairro em sua periferia. Arrumei um emprego de vendedor de carnê do "Baú da Felicidade", empresa de propriedade de sua mais folclórica personalidade: Silvio Santos. Através deste emprego, São Paulo, eu conheci as tuas profundezas e os teus cantos mais recônditos; tuas ruas íngremes e teus becos desolados; teus cortiços e vilas, vielas e avenidas. Deparei-me com tua gente dependurada nos topos dos morros, fincadas nas tuas encostas; admirei tuas mansões e me deprimi com tuas favelas, córregos e riachos fétidos - verdadeiros depósitos de lixo: fábricas mesmo de doenças e viveiro de ratos. Compreendi o desejo desesperado de fuga da miséria de teus excluídos, representado no acalanto de sonhos repletos de promessas não cumpridas.
Ao revelar-se dessa maneira, o que esperava de um sujeito incauto como eu? Admiração ou repulsa? Hoje sei que não esperava nada; apenas desejava se revelar sem retoques para que pudesse ser compreendida e aceita, se possível, exatamente como é. E assim é tu, São Paulo: um monstro constituído de cimento, aço, vidro e asfalto; de tamanho incomensurável, estendendo-se, sem piedade, sobre a superfície desse chão. Constituí-se, a bem da verdade, num oásis de características próprias, nutrindo - embora de forma distinta - os viajantes que em teu solo buscam alento. És consciênte do quanto o teu temperamento é inconstante? Sabe o quanto nos afeta essas tuas mudanças repentinas de humor? Quando verte tuas lágrimas teus rios transbordam e quase nos afogam em caudalosas torrentes; quando o calor de tuas paixões irrompem à superfície, incinera seus edifícios e todos os que lá habitam ou labutam; quando estás apressada no trânsito atropela e mata sem piedade quem encontra pela frente; e na sua ânsia por justiça social toma de assalto as avenidas e praças com suas passeatas e clama, enfurecida, ostentando cartazes e gritando slogans com a cara pintada, pelas mudanças que exige. Até despencastes mais de uma vez dos céus esborrachando-se sobre seu duro solo, cuspindo para fora os corpos carbonizados daqueles que confiaram na segurança de seus vôos.
Seus contrastes são tão imensos quanto a sua extesão territorial, pois eis que desfila linda e faceira, vestida em trajes de corte preciso, feito sob medida em tecidos nobres, pelos bairros elegantes e recobre-se de farrapos nas favelas. Pretende-se culta e educada nos Jardins e vomita ignorância na periferia. Com uma mão distribui alento a quem dele necessita - pelas ruas e através de instituições voltadas para a filantropia -, e com a outra subtrai, com o uso da violência, os pertences - quando não a vida - daqueles que engrossarão as estatísticas policiais. Como mãe não se constitui num exemplo a ser imitada: ampara e encaminha algumas de suas crianças deixando outras entregues à própria sorte. Ouvimos diariamente no noticiário como as empilha nas casas de recuperação. Vemo-las perambulando pelas ruas e praças do centro com os narizes enfiados em sacos plásticos cheirando cola e entorpecendo suas mentes infantis de maneira irreversível. Vemo-las também com as mãos enfiadas nos bolsos dos idosos a lhes subtrair, como animais raivosos num ambiente inóspito e hostil, o substrato para a sua sobrevivência. Tens consciência de todos os teus atos, São Paulo? Estou sendo sarcástico demais? Deveria ser menos rigoroso da definição de sua personalidade? Não, não creio. Devo acrescentar, porém que tenho plena consciência de seus incontáveis esforços para oferecer-se melhor para os que insistem em ti confiar e permanecer sob sua guarda. Sei que sopra migalhas de sua fartura em direção à periferia para onde escorraça aqueles que tu rejeita, menos para socorrê-los do que para mantê-los convenientemente afastados e disponíveis aos seus anseios de progresso.
Em teu seio conheci a Liberdade; vaguei de um lado a outro de sua geografia sem obrigar-me a fazer nenhuma escolha: Pinheiros, Vila Maria, Vila Formosa, Jardim Bonfigliolli, Cerqueira Cézar, Vila Mariana, Santo Amaro, Santana, Interlagos, Pedreira. Em teu seio sorvi o néctar da independência; trabalhei sob tuas regras e condições sem requerer privilégios e não me resignei quando me estendestes teus grilhões: esses mesmos que reserva aos que de ti dependem. Em ti me firmei como homem compondo com pedaços de sua carne a matéria de meu próprio corpo e mente. Habitei teu, por vezes, frio e indiferente coração, e excursionei muitas vezes em teu cérebro e lá me fartei da luz que emana de teus sábios, dissipando as trevas que me impediam o conhecimento. Naveguei em tuas artérias incansavelmente e assim, como passageiro inusitado, através das janelas das lotações, desvendei os mistérios contidos em tua estrutura corpórea. Constituiu-se para mim um deleite apreciar tuas linhas arquitetônicas, tuas formas inovadoras, teu poder de auto-regeneração em sua metamorfose constante.
Que desconforto psicológico acarreta deparar-me com milhares de faces humanas num dia e jamais revê-las num outro. Quantos olhos tu possui metrópole, e quantos desses se comprazem comigo, me provocando comoção? Será essa imensa massa humana que se acotovela no metrô e lotações; nos milhões de automóveis com sua buzinas impertinentes que atravancam ruas e avenidas num arrastar-se contraditório, dadas as potências de seus motores? E quanto mais anos acumula, São Paulo, mais vigor ostenta. Realizou-se como a mais importante cidade do país; a mais rica, a maior renda per capita, o maior parque industrial, o maior centro financeiro da América Latina... E agregado a esses títulos, herdou outros menos admiráveis: títulos que trazem acoplados a violência, estatísticas demograficas nada elogiáveis, poluição generalizada, catástrofes imensuráveis, tragédias inexplicáveis, corrupção incrustrada, desemprego, assassinatos, atropelamentos, sequestros, assaltos, pobreza, miséria, fome, transporte ineficiente, déficit habitacional, lastimável condição dos serviços públicos, de sáude, segurança, infra-extrutura...
Entre idas e vindas findei por estabelecer um vínculo afetivo e duradouro contigo. Teus argumentos foram por demais persuasivos não me permitindo contra-argumentar. Sua sedução se consolidou ao oferecer-me possibilidades de crescimento particular. Sei que promete muito, como qualquer um de seus políticos na ânsia pelo voto, mas distintamente destes, cumpre tuas promessas àqueles que se empenham em seus objetivos. Mas estes são tantos que tens, obrigatoriamente, que garimpar entre os melhores.
E eu aqui, São Paulo, tratando-a como criatura feminina. Será porque é uma metrópole - uma imensa matrona, gorda e pançuda -, que têm a pretensão de prover todas as nossas necessidades? Será porque a defino como mãe: essa senhora casta, carinhosa e compreensível que perdoa, sem reservas, todos os nossos deslizes e nossas fraquezas? Ou será pai? Como o santo de quem emprestou o nome e que é considerado como um dos fundadores de uma religião?
Será pai, porventura, de alguma doutrina ou metodologia? Sei que em teu seio comporta, com elogiável mediação pacífica, todas as religiões do mundo. Mas creio particularmente que não tens a pretensão de enunciar verdades universais incontestáveis, visto que vive permanentemente colocando-as em confronto para que possam, através desse processo, extrair o supra-sumo de suas inferências. Tua realidade - esse seu aspecto que Caetano tão bem explicitou em sua famosa canção "Sampa" -, não pode ser considerado como um dogma irrefutável; é, antes, um aspecto negativo a ser combatido, vencido e transformado segundo os interesses gerais, mesmo que essa atitude revolucionária vá contra as ideologias das classes dominantes. Mas tu és mesmo feminina e masculina: figura incontestavelmente hermafrodita. Tu és um objeto e não uma deusa da materialidade, apesar de tê-la considerado como tal. É massa bruta, mineral e orgânica, a ser moldada incansavelmente pelas mãos de algum requintado artesão. É o pai que não tive e a mãe que se absteve da sua responsabilidade pelo menino que tu moldaste homem. Considera-me filho ingrato ao apontar mais seus defeitos e menos suas qualidades? Vai agora recusar-me, por isso, tuas fartas tetas à minha boca sedenta como tantas vezes o fez?
São Paulo, meu pai e minha mãe, obrigado pelo berço e pelo seio; pela fumaça negra, fedorenta e impregnante que exalas e que eu tenho que respirar; pelas distâncias físicas, imensuráveis, que tenho que transpor; pela riqueza e variedade dos alimentos que aqui aportam oriundos de todo o país; pela beleza irresitível de suas mulheres, por sua coragem e sentido de independência; pela sua artquitetura arrojada; pela imponência de seus monumentos; pela água escassa de seus reservatórios; pelas escolas suburbanas que tentam minimizar as diferenças entre suas classes sociais; pelos políticos corruptos que não hesitam em lesar vosso patrimônio; pela excelência de vossos intelectuais; pelo talento inquestionável de seus artistas; pela truculência de alguns de seus policiais; pela competência, honestidade e dedicação dos demais; pelos estragos das anacondas e seus filhotes; pela câmara de vossos vereadores que legislam quase sempre em causa própria e pelos que, nesta classe, vos defendem destes; pelo sangue esparramado no asfalto, nas escolas, nos ônibus, no metrô, nos Bancos, nas empresas, no trânsito...; pela morte cuspida das miras certeiras ds sicários; pelas balas perdidas que fatalmente encontram destinatários; pelos amigos que fiz...
Obrigado São Paulo, pai, mãe, irmão, amigo. Obrigado célebre desconhecido, por me receber e permitir que eu sufrua tudo o que venha conquistar. Náufrago, conduzido por águas resolutas aportei em suas margens. Eu, ser temporário, parabenizo vossa eternidade nesses passageiros 450 anos. Feliz Aniversário, Metrópole. Um dia ainda será como as maiores e mais idosas cidades do mundo e ostentarás - esse é o meu mais sincero voto - títulos que revelem tua tão esperada vitória sobre os males que a afligem neste momento em que redijo essa missiva.
Hoje sei que naquele dia perdido no tempo e na memória, aqueles jovens fardados, ao me constragerem quando me obrigaram a trocar a calça que trajava com o orgulho de um jovem rebelde, simbolizavam, à sua maneira, a exigência e o rigor de uma disciplina que futuramente eu adotaria - e traduziria como prudência -, como fundamental para uma convivência pacífica contigo. Sempre soube do que é capaz, São Paulo. Por isso nunca lhe cutuquei com vara curta. É fundamental conhecer-te bem para acorrermos ao teu abraço quando por isso clamas e reconhecer o momento certo de afastar-se quando te revelas zangada, a fim de evitar teus sopapos.
Sei que deixei de falar de muitas de tuas características, mas, sabes bem, é culpa tua mesmo; desse teu tamanho descomunal, que um mortal comum como eu não consegue abranger. Pois, veja só, quando acordamos na manhã seguinte, descobrimos que não dormistes apenas para trabalhar mais e continuar, ininterruptamente, a crescer, como se o seu tamanho atual não fosse suficiente para os seus insondáveis objetivos, e então revemos, nesse seu processo, um dos mais característicos traços de tua personalidade que findamos por incorporar: crescer sempre, sem limites, na direção de seus propósitos. Ave, São Paulo.


Crônica escrita na ocasião da comemoração dos 450 anos da cidade.

Videos: Scarlet Leaves


1 -"Faces" 2 - "Misth"

O clip "Faces" foi produzido a partir da reciclagem de material não utilizado na produção do filme "Gothic" - postado na íntegra neste blog. O clip "Misth" foi produzido com fotografias da banda extraídas desse mesmo material, além de fotos baixadas de páginas particulares no Orkut dos membros da banda. As músicas escolhidas para estes videos atestam a qualidade sonora dessa banda brasileira que transita pelo underground paulistano. A competência e criatividade de seus membros pode ser verificada tanto nas composições quanto nas performances ao vivo. Claudia, a vocalista, demonstra todo seu talento e, principalmente, carisma, com movimentos graciosos de seu corpo no palco, seguindo os apelos rítmicos da música perfeitamente executada pelos demais integrantes. O clima de descontração que acompanha essas performances se evidencia na postura de Audret (guitarra), de Danny (baixo) e Jean (teclados), embora jamais permitam que essa descontração comprometa o produto final - a música - respeitando seus fãs, que acorrem aos bandos onde quer que se apresentem.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Videos: Um olhar despretensioso no interior da Metrópole



Estes filmes pretendem apenas proporcionar deleite estético ao expectador que não está interessado em críticas ácidas de qualquer natureza, nem mesmo dirigidas à cidade que tanto ama. Nestes pequenos filmes a liberdade com a utilização da imagem torna-se norma. Uma norma que exige obediência e disciplina na releitura e reinterpretação daquilo que representa originariamente. Obediência que requer uma transmutação dessas representações em novos significados. Embora não tenha subvertido completamente esses significados originais, em alguns momentos essa intenção é alcançada. A beleza e o caos dessa metrópole se misturam numa massa visual compacta e dinâmica denunciando sua pressa e urgência em ser, em estar, em se consolidar, mesmo que saibamos de antemão que não existem limites para esta sua ambição. Mesmo assim, sua transformação ocorre, mesmo que não com o sentido e a direção que a maioria sensata de seus habitantes consideraria ideal. As imagens destes filmes, tanto as estáticas quanto as dinâmicas, foram captadas com uma câmera digital comum e finalizadas em um programa doméstico de computador. Somente o filme "Controle Remoto" traz embutido na impaciência do expectador televisivo uma crítica velada sobre a programação de Tv disponível; ou apenas represente um momento de tédio.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Video: O Errante


O errante
um filme de Gilberto Lins
trilha: In Reverenci (Days Are Nights)

Este video repete o tema de quase todo material postado neste blog, o do errante que, enquanto caminha, reflete sobre a sua condição e a de seus semelhantes no conturbado ambiente em que vivem. A trilha da banda Days Are Nights contribui com o clima ideal para a trajetória nesse espaço fantástico em que o personagem transita.

sábado, 17 de outubro de 2009

Video: Strangers in the Space


Strangers in the Space
um filme de Gilberto Lins
Trilha: versão sinfônica de "Stairway to Heaven" do Led Zeppelin

Este video é endereçado àqueles que, assim como eu, se permitem à fantasia; àqueles que se deixam conduzir por sua imaginação livremente, não se importando até onde ela pode conduzí-lo. Dessa forma permitimos que nosso espírito fique por alguns momentos livre das amarras impostas por nosso modo de vida. Permita-se esse prazer de fugir da dura realidade que nos cerca num universo de fantasia e som maravilhoso. O universo é ilimitado, assim como nossa imaginação. Que seria de nós sem esta ferramenta maravilhosa? Good trip.